Outubro de 2021 foi a última vez que sentei minha bunda inquieta para escrever alguma coisa para o blog. Ainda era pandemia, esse site era novo, recém pronto. Para o blog a intenção era alimentar com textos, processos, desenvolvimento de projetos, curiosidades e tudo mais que me desse na telha. O projeto era promissor, mas a energia para fazer isso não foi suficiente. Acabei sendo engolido por vicissitudes que aos poucos me afastaram da prática de escrever e, inclusive, atualizar o site com constância. Nos bastidores nunca parei, nem de produzir meus trabalhos, mas o ímpeto de postá-los ou compartilhá-los na internet foi perdendo o sentido. Sinto que um silêncio se instalou dentro de mim, mas por necessidade, não por escolha.
A pandemia, por mais bizarro que seja falar dela hoje em dia, sabe-se que gerou uma mudança grande no comportamento das pessoas. No âmbito individual só poderia expor minhas próprias reflexões, mas no âmbito coletivo posso expor percepções, que são de uma pessoa observadora e crítica, que anda pelas cidades onde passo degustando cada centímetro daquilo que enxergo. A ideia é provocar reflexões e não necessariamente estar certo sobre fatos.
Lembro do primeiro semestre da pandemia, que aqui no Brasil começou com o lockdown em Março de 2020. Existia um silêncio nas ruas, como se todos os dias fossem domingo. Após 6 meses isso foi mudando e aos poucos as coisas foram se normalizando, mas somente por fora, porque por “dentro” muita coisa estava rolando. O uso da internet como principal meio de comunicação entre as pessoas começou a se consolidar de uma maneira diversa, já que ninguém podia sair, o trabalho e o lazer tornaram-se majoritariamente digitais. As redes sociais, de lá pra cá, evoluíram de maneira indiscriminada também. Antes já era ruim, mas com o avanço da vida digital, o que servia para trocas de ideias, tornou-se veículo de muitos males – sutis e silenciosos – que alteram nosso comportamento e tolerâncias. Para citar alguns: a propagação de muita publicidade e propaganda desnecessárias que estimulam o consumismo desnecessário; a degeneração do cérebro – com feeds intermináveis e conteúdos vazios, rápidos e repetitivos; a ostentação de pessoas e/ou influencers ao compartilhar suas vidas e conquistas; a transformação de tudo em produto; a falsa necessidade de se manter sempre presente e ter opinião sobre tudo; etc. A lista é grande e, quiçá, infinita. Não é olhar por lentes negativas, vendo o copo metade vazio, as redes também trazem coisas boas, mas a lista é muito menor, sendo basicamente a troca de ideias, conhecimento e saberes; rever e conversar com pessoas queridas que estão longe. Fim.
O vício por atenção
Será que alguém se pergunta: porque posto? Porque compartilho? Por quê? Certamente haverão diversas respostas a depender do perfil da pessoa, mas uma coisa é verdade: queremos ser vistos e gostamos de ver. A vida virou um produto, que quanto mais íntimo, melhor. Um mercado muito lucrativo para alguns, consequentemente muito prejudicial para outros – a maioria. O uso constante dessas redes gera um ruído na vida, castrando a verdadeira criatividade e desviando de propósitos realmente significativos
É legal ter pessoas batendo “palmas virtuais” quando se posta algo, a gente se sente bem, dopamina é injetada, mas sinceramente porque queremos tanto a aprovação alheia? E de pessoas que nem sequer são próximas ou nos querem bem. Como somos mimados! Aquilo que somente nossos pais, cuidadores, professoras, ou pessoas queridas eram capazes de nos dar quando éramos crianças e adolescentes – ou nos anos dourados pré interações virtuais – agora são transferidos esse poder à qualquer um, nos tornando adultos viciados por atenção. É urgente que precisamos rever nossas prioridades, lidar com traumas e entender.
Esse texto-desabafo é também para expor vulnerabilidades minhas, pois percebi que sou vítima. Percebo muitos efeitos negativos em minha vida a respeito do uso constante de redes efêmeras como Instagram. Mesmo não sendo consumidor de redes como TikTok ou X (antigo Twitter), ainda sim sou rodeado de produtos que fragmentam a atenção, como o Whatsapp, com a ideia de estar constantemente disponível; Youtube, que também aderiu a vídeos curtos e, apesar de ser maravilhoso, é também um meio adicto com inúmeras possibilidades de programas para assistir e se distrair. Linkedin, o mais nojento de todos, um mural de pessoas exibindo seus currículos e certificados, buscando aprovação de um deus que só existe por causa de uma convenção social: o Mercado. Dá pra colocar aqui também redes de jogos onlines, relacionamentos, cursos, arte… Se parar pra pensar, existem redes para TUDO hoje em dia.
E nem me venha com essa: “Ah, mas as coisas funcionam assim agora, só aceita”. Olha, eu aceito, e não sou contra o avanço da tecnologia e das inovações, o que não aceito é que as pessoas que criam essas redes lucram em cima de nossa atenção e saúde mental, através do vício e das diversas fragilidades humanas, como a busca por aprovação. Possivelmente esse é um caminho sem volta, as redes se instalaram no cotidiano, mas precisam de regulamentações, pois as consequências são cada vez mais evidentes, chegando a serem usadas até para crimes, golpes virtuais, manipulação e padronização de pensamentos. É mais fácil lidar com pessoas com opinião fabricada pelo algoritmo. É só ver a política atual, não é um absurdo que ainda existam pessoas que aderem ideologias preconceituosas e conservadoras?
Relato pessoal
Desculpe, eu me perdi. Quis desabafar, e o texto se dispersou — um reflexo do que acontece na vida. Desviei minha atenção para conteúdos alheios: gatilhos para sentimentos e sensações venenosas — inveja, ciúmes, comparações. Tiques nervosos, impaciência, falta de foco. Ansiedade. Meus objetivos foram se dissolvendo e sumindo nesse grande mar de promessas e possibilidades que as redes oferecem.
Boa parte do meu conteúdo é censurado e quase não gera engajamento. Com o tempo, passei a considerar meu material fraco e sem sentido, tentando entender o que realmente me motiva a postar o que crio — até que estacionei. Criar apenas para postar está fora de questão. Meu trabalho não pertence às redes efêmeras: elas me sabotam, fazendo-me sentir medíocre quando não há retorno em visualizações, reconhecimento ou dinheiro, enquanto outros, aparentemente, conseguem se dar bem com muito menos. Isso suga minha energia vital. Se ninguém vai ver, pra que fazer?
O foco nos objetivos caiu por terra com as múltiplas possibilidades de escolhas e caminhos que a contemporaneidade apresenta, fazendo-me travar na hora de tomar decisões, mesmo as mais simples. Também elevei minhas expectativas às alturas várias vezes por conta de trabalhos que fiz, oportunidades que tive e promessas que recebi, mas a fugacidade das redes contamina não só a tomada de decisões, mas também a palavra das pessoas, que acabam não cumprindo seus acordos – atoladas em tarefas, acreditando que fazer mil coisas ao mesmo tempo é sinônimo de sucesso. Além da facilidade de trocarem o velho pelo novo, descartando pessoas e ideias como se descarta um lenço de papel usado – a liquidez de possibilidades.
Minhas expectativas e sonhos começaram a trazer sofrimento quando percebi que não tenho vontade de jogar esse jogo, e isso tem um preço. Hoje busco desenvolver minhas próprias regras, moldando a realidade para funcionar como eu desejo, mas isso é difícil demais, é nadar contra a maré. Talvez uma busca que vai além da materialidade, para a vida toda.
A importância do silêncio
Silenciar e observar é, acredito, uma das formas mais potentes de ser ativista e transgressor. Transgredir é ir contra as convenções, é trabalhar por mudanças reais — e essas raramente vêm de fora para dentro. A mudança consistente nasce de dentro para fora, pois nada no mundo foi primeiro criado e depois pensado: primeiro vem o estímulo, depois o pensamento e, por fim, a ação.
Na era do imediatismo, cultivar um pensamento crítico sobre si e sobre o mundo exige tempo. Mas, segundo a filosofia líquida atual, se os resultados não forem instantâneos, nem vale a pena começar. Escrevo isso para eu mesmo entender, porque sofro; também sou imediatista e mal consigo planejar minha vida para os próximos seis meses. Sou resultado de uma sociedade duvidosa e individualista — mas trabalho para mudar isso.
Eu me silencio todos os dias. Não faço questão de aparecer futilmente. Busco ser alguém de quem eu me orgulhe, sem precisar me adaptar para agradar o mundo. Pode parecer contraditório um artista dizer isso — apesar de todos os meus desejos de enriquecer com a arte, encontrar propósito, caminhos e ações que beneficiem o maior número possível de seres —, se isso ferir meus princípios ou ajudar a alimentar ainda mais essa loucura coletiva, então provavelmente morrerei como um completo desconhecido. E tudo bem.
Minha busca é mais interior que exterior. Meu trabalho, sobretudo os mais recentes, mesmo contendo nudez e erotismo às vezes explícitos, são, na verdade, expressões da subjetividade e críticas humanas e sociais.
Hoje, minha intenção é encontrar maneiras de driblar o sistema, curar-me das mazelas que descrevo, realizar os desejos do meu ego e, ao mesmo tempo, elevar-me — e, de alguma forma, tocar quem estiver ao alcance da minha arte.
O silêncio é o caminho. Para enxergar melhor. Para reagir melhor. Para entender se meus desejos são genuínos ou apenas reproduções do que é fabricado. Silêncio para cultivar uma paz interior inabalável como uma grande muralha, mas que seja também uma ponte para atravessar rios tortuosos sem medo de cair. Silêncio porque nem tudo precisa ser dito ou compartilhado. Nem todos nos querem bem — uma triste verdade. As palavras têm o poder de criação e destruição, mas o silêncio tem o poder de revelar a verdade por trás do mínimo murmúrio interno.


